sexta-feira, 17 de maio de 2013

Lady Evaristo.



Não fui me despedir de lady Evaristo. Além de não gostar de despedidas, penso que com ela eu me reencontrei, e que outros encontros ainda virão. Eu não haveria de dizer adeus.

Conceição Evaristo deixou em mim e em São Tomé vários ecos...
Deixou sua ternura.
Deixou suas falas.
Deixou suas escritas de vivências.
Ecrevivências.
Deixou pupilos no ISP.

Deixou, sobretudo, o gosto de ter se sentido em casa e nos ter tornado parte de sua família.

Conceição Evaristo está voltando para o Brasil, para sua primeira casa, mas sua voz está aqui. Forte e firme como sua presença.

Saravá, minha lady!



quinta-feira, 16 de maio de 2013

"Não há uma língua portuguesa, há línguas em português". (Saramago)



As comemorações das nuances de nossa língua!

Primeira semana de eventos realizados pelo CCB-STP e Leitorado Brasileiro em ST&P

Desde o dia 10 de maio, Conceição Evaristo e Rogério Barbosa, escritores brasileiros, estão conosco em São Tomé e Príncipe para comemorarmos o Mês da Língua Portuguesa. As programações foram um sucesso, e tenho a certeza de que os escritores vão embora de ST&P levando uma bagagem bem grande para o Brasil... de saberes!!!

Dentre os assuntos sobre os quais tratamos, houve uma forte ênfase na importância do continente africano para a construção do Brasil (de nossa cultura, de nossa língua, de nossa identidade e de nossa estrutura física também). Falou-se da literatura infanto-juvenil e da importância do livro como um verdadeiro divisor de águas nas vidas de quem lê.

Além das atividades com os autores brasileiros, tivemos o prazer de ouvir o Sr. Albertino Bragança (na Casa da Cultura), contista e romancista são-tomense, que proferiu palestra acerca das interferências das línguas crioulas no português falado em São Tomé e Príncipe. Enfatizou-se, neste ponto, a importância do reconhecimento da legitimidade de todas as variantes do português falado pelo mundo afora (variantes africanas, variante brasileira, variante portuguesa, variantes no oriente...), a importância e a urgência de se descrever o português falado em São Tomé e Príncipe e de se mudar o status quo ainda preservado desde eras coloniais. Para tanto, debateu-se a necessidade de investimento em pesquisas linguísticas de estudiosos são-tomenses para a elaboração de um documento que vá ao encontro das verdadeiras necessidades do país.

Agradeço ao poeta Luís Vaz de Camões por ter “fundamentado” a nossa língua na grande obra Os Lusíadas e por, depois da aventura na escrita, a língua passasse pela aventura das viagens, das culturas e dos contatos com tantos povos diferentes que a modificaram, enriqueceram, eternizaram. Por isso, repito palavras de Saramago: não existe uma língua portuguesa, mas línguas em português.

E por causa dessa variedade de “sabores” que a língua assume em cada lugar que aporta, comemoramo-la: valorizamos os seus novos cantares, damos vida aos seus sotaques, às suas cores, aos seus jeitos...

Compreender que as línguas mudam com o tempo (e que ricas mudanças por que ela passa!) é o ponto fulcral para compreendermos as culturas que a assumiram como sua. A língua portuguesa é, hoje, de São Tomé e Príncipe e do Brasil, é de Moçambique e de Angola, de Cabo Verde e de Portugal, do Timor-Leste e de Goa e de Macau, é da Guiné-Bissau (perdoem-me a má rima)...

Nossos povos são gratos por podermos compartilhar o mês da língua e das culturas de línguas em português!

Preciso agradecer à Leila Quaresma, diretora do Centro Cultural Brasil-São Tomé e Príncipe e ao Secretário Maurício do Carmo que, há quase um ano, vêm trabalhando arduamente e incansavelmente para que esses eventos acontecessem. As fotos estão muito belas, mas leiam a mensagem por trás delas: trabalho, muito trabalho. O Leitorado Brasileiro rende-lhes reverências!

Conceição Evaristo e Albertino Bragança em diálogo na União Nacional de Escritores e Artistas São-tomenses - UNEAS.

Maximino Carlos, jornalista da TVS, e Conceição Evaristo.


O Primeiro Secretário da Embaixada do Brasil Maurício Martins do Carmo, Conceição Evaristo e Rogério Andrade Barbosa - Sala de Leitura Cecília Meirelles

Conceição, Rogério e Naduska.

Exibição do documentário "Família Alcântara" no auditório do CCB-STP.

Auditório do CCB-STP - Coversa com Conceição Evaristo.

O escritor são-tomense Albertino Bragança - CCB-STP.

Conceição Evaristo.

Conceição Evaristo, Conceição Lima e Maurício do Carmo.

E eu!

Conversa de Conceição Evaristo com alunos do ISP.

ISP

ISP

UNEAS

Conceição Lima lê poemas de Conceição Evaristo - UNEAS

Sessão com Rogério Andrade Barbosa e Conceição Evaristo no ISP.

Eu e Conceição Evaristo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Maio - Comemorações do Mês da Língua Portuguesa e Cultura CPLP


O Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades da República Democrática de São Tomé e Príncipe, em parceria com as Representações Diplomáticas dos Países Membro da CPLP em STP, a saber: Embaixada do Brasil, Portugal; Angola e Consulado de Cabe Verde, celebram o Mês da Língua Portuguesa e Semana Cultura da CPLP.

5 DE MAIO: Dia da Língua Portuguesa e Cultura CPLP
Início do Festival de Cinema da CPLP 2013 (TVS)

Brasil - Lisbela e o Prisioneiro
Brasil - Mulher Invisível

10 de maio
18h, no Centro Cultural Brasil-São Tomé e Príncipe: Cine-debate com participação da escritora
brasileira Conceição Evaristo;

12 e 13 de maio
Ilha do Príncipe: Oficina “Como trabalhar com os livros infantis e a contar de histórias na sala
de aula”, para educadores sobre a arte de contar histórias, com Rogério Andrade Barbosa.

13 de maio
17h, na sede da UNEAS: Encontro de Conceição Evaristo com escritores santomenses (Leitorado Brasileiro e CCB-STP)

14 de maio
17h, Colóquio subordinado ao tema “Interferências Linguísticas da Língua Portuguesa em São
Tomé e Príncipe”, na Casa da Cultura – Palestrante: Albertino Homem Bragança, Presidente da
UNEAS.

Quarta-feira (15 de maio)
17h, no Instituto Superior Politécnico: palestra sobre a " A importância da cultura africana no
Brasil"
Convidados: Conceição Evaristo e Rogério Andrade Barbosa (Leitorado brasileiro)

Quinta-feira (16 de maio)
18h – no CCBSTP: Palestra sobre “O panorama da literatura infanto-juvenil no Brasil”
Palestrante: Rogério Andrade Barbosa

Sexta-feira (17 de maio)
18h, no Centro Cultural Português: lançamento da exposição de artistas plásticos santomenses

Sábado (18 de maio)
18h, no Centro Cultural Brasil-São Tomé e Príncipe: apresentação musical de Maurício Lourenço

Segunda-feira (20 de maio):
18h, no Centro Cultural Português: dramatizações de texto da lusofonia (textos ensaiados com alunos do ISP pela leitora Joana Castaño)

Quarta-feira (22 de maio)
18h, na Casa Cinema: I Festival de Cultura de São Tomé e Príncipe e Capoeira

Quinta-feira (23 de maio)
18h, no Centro Cultural Brasil-São Tomé e Príncipe: Festival de Cantigas Santomenses

Inscrições abertas para cursos no CCB-STP

INSCRIÇÕES ABERTAS

O Centro Culturtal Brasil-São Tomé e Príncipe tem a honra de informar que estão abertas as inscrições para os seguintes cursos, com período de início previsto para este mês de maio:


• CURSO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA ESTRANGEIROS
Público-alvo: não lusófonos

• OFICINA BÁSICA “ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA”
Período de realização: maio
Requisito para inscrição: mínima 10ª classe

• OFICINA DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA CRIANÇAS
Público-alvo: crianças da 5ª e 6ª classes.
A proposta da oficina consiste em trabalhar particularidades da gramática da língua portuguesa através de jogos, leitura e interpretação de textos.
Período de realização: às terças e quintas-feiras, 14h30 às 16h, na Sala de Leitura Cecília Meireles.

• CURSO DE INFORMÁTICA BASEADO NO SISTEMA OPERATIVO UBUNTU LINUX NA ÓTICA DO UTILIZADOR
Carga Horária: 48 horas/turma
Turma 1: Segunda/Quarta/Sexta
Turma 2: Terça/Quinta
Horário: 16 às 18h
Metodologia de ensino: Aulas teóricas seguidas de exercícios práticos
Material didático: manual didático com CD de vídeo-aula
Requisito para inscrição: mínima 6ª classe completa

Vagas limitadas!!

Local de inscrições: Sala de Leitura Cecília Meireles (CCB-STP)
Horário: 8 às 17 horas
Para mais informações: 222 6060

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Mais sobre o mês da língua

Prezados,
há mais de meio ano, vimos trabalhando para realizar as comemorações do Mês da Língua Portuguesa de 2013, mês extremamente importante para nós (brasileiros e são-tomenses), que temos como laço esta língua que nos une: o português.

Para nós, os brasileiros, é um prazer imenso compartilhar com nossos amigos são-tomenses um pouco do que a África representa para o nosso país. Mais do que a herança, visível nas nossas peles, há heranças imateriais, partes do nosso imaginário comum, das nossas histórias, das nossas lutas por um mundo melhor.
O Embaixador do Brasil em São Tomé, a Diretora do Centro Cultural Brasil - São Tomé e Príncipe, o Primeiro Secretário da Embaixado do Brasil e a Leitora Brasileira no ISP agradecem aos escritores, artistas, acadêmicos brasileiros que aceitaram o nosso convite para participar dos eventos, aos amigos e artistas são-tomenses que colaboraram conosco e farão parte dessas comemorações.
Contamos com a presença de todos os que aqui vivem em programa divulgado aqui neste blog e os convidamos a conhecer um pouco mais os nossos convidados da primeira semana (10 a 16 de maio) no Jornal Téla Non:
 
http://www.telanon.info/sem-categoria/2013/04/30/13073/comemoracoes-do-mes-da-lingua-portuguesa-10-a-16-de-maio-de-2013/

Em tempo: junho e julho vêm com novidades imperdíveis para comemorar os 100 anos do nosso poeta Vinicius de Moraes. Coro são-tomense (regido por uma musicista brasileira), violões brasileiros e são-tomenses, cordas mestiças e mais vozes intercontinentais nos brindarão com meses que prometem ser um sucesso!

Abraço a todos os que nos apoiam e amam estas lindas ilhas equatoriais!

terça-feira, 30 de abril de 2013

Mês da Língua Portuguesa - Programação.

É com imenso prazer que a Embaixada do Brasil em São Tomé, o Centro Cultural Brasil - São Tomé e Príncipe e o Leitorado Brasileiro divulgam a programação para a semana de 10 a 16 de maio de 2013, com os escritores Conceição Evaristo e Rogério Andrade Barbosa.

Ajeitem suas agendas, estejam presentes!


Dia 10 de maio, sexta-feira, às 18h, no CCB-STP: exibição de filme com debate, com a escritora brasileira Conceição Evaristo;

Dia 11 de maio, sábado, às 15h, participação dos escritores brasileiros Conceição Evaristo e Rogério Andrade Barbosa no programa “Estação Brasil”, dirigido por Gil Vaz, da Rádio Jubilar (91,9);

Dia 13 de maio, segunda-feira, às 17h, na UNEAS, bate-papo entre a escritora brasileira Conceição Evaristo e escritores são-tomenses.

Dia 14 de maio, terça-feira, por volta das 21h, participação dos escritores Conceição Evaristo e Rogério Andrade Barbosa no programa “Cartas na mesa”, dirigido pela jornalista Conceição Deus Lima, na TVS.

Dia 15 de maio, quarta-feira, às 17h, no Anfiteatro do ISP, palestra com os escritores Conceição Evaristo e Rogério Andrade Barbosa, acerca do tema A importância da cultura africana no Brasl-

Dia 16 de maio, quinta-feira, às 18h, palestra com o escritor Rogério Andrade Barbosa, no CCB-STP, acerca do Panorama da literatura infanto-juvenil no Brasil.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Pérola do além-mar



Carta pá Apolinária – (São de Deus Lima, 2010)

Minh’ amiga Apolinária:
            Ôcê mandô dizê como ôcê quer vi n’bora. Kuesa kê posso dizê ôcê, é: todo sítio tem vivê, todo sítio tem morê. Minha avó San Nôvi tinha uma kuesa di siora qui siora custumava dizê:
            «Inem prima só sêbê kwa d’inem prima».
            Si ôcê kansô di frio, kansô di limpa chão, di limpa escada, kansô di pensá família, vem pá tua tera. Kuesa non tá bem, kuesa tá wixi-waxa, mas nossa tera é nossa tera. Ninguém podi corê com ôcê daqui, ninguém, nem êssis qui tomô tera fez roça di pai dêlis, nem êlis non podi mêtê ôcê n’avião.
            Minha tia Joana diz saudadi non mata ninguém. Mas genti qui já saltô água, genti que já saltô seti mar, sabe. Saudadi di tera mata como doença, mata como faca, mata como espada. Pissôa seca como folha, seca desde fundo di raiz como flor qui non vê água.
            Si ôcê quer vi n’bora, vem. Mas vem preparada, porqui tera mudô muito. Tem pissôa qui diz tera non mudô, mas tera mudô muito, piquena.
Bubo-Budo, Trás Cimitério, San João,  Ponti Graça, Boa Morte, Ôkê da Rê, Misquita, mudô dimás. Sítio qui era mato, agora é casa só. Estrada di vua satá, agora é caminho d’alcatrão, largo, camião passa. Todo êssi canavial,  n trás di casa di Sô Adálio, todo êssi campo di cana macaco lá n Cóbó Gita, acabô. Casa só. Viuvinha, bicu-di-lacri, ôcê non vê más. Keblankaná, ôcê non vê más. Suim-suim, kurukuku, keleketê, custa pá ôcê vê. Burbuleta, ôcê prucura com candinhêro, ôcê non vê. Ê tô aqui com um ano já, nenhuuuma buburbuleta só ê non vi ainda a vuá aqui n cidade, com asa delas, com cor delas como guache, com priguiça delas. Ê non sê si burbuleta subiu, si burbuleta desceu, si burbuleta fugiu pá ôbô, si burbuleta môreu.
            Salambá, aqui n cidade, ôcê non vê más. Farrôba, uma 7 conto, ê comprê aqueli dia n Escola Maria Jisus. Dia siguinte ê fui, non tinha. Ôtro dia ê fui, non tinha. Ê disisti.
            Nosso pêssêgu, ôcê ainda vê, com sorte, quando é tempo dêli.
            Tera mudô, Apolinária. Bunzu di mato virô nzanvé ô maxipombô. Más ainda do qui nzanvé ô maxipômbô. Genti comi bunzu assado, caldêrada di bunzu, espetada di bunzu, caril di bunzu, bunzu refogado com coco, bunzu refogado sem coco. Pikiniki tem bunzu, bêra di toda estrada tem bunzu, festa di campanha non falta bunzu, baptizado tem bunzu, aniversário tem bunzu, nozadu tem bunzu, até casamento agora tem bunzu.
            Ôtra kuesa qui genti tá a cumê di kasu sério, é gato. Genti tá a cumê gato qui dá ôcê medo. Gato virô galinha. Ôcê vai visita genti, genti diz ôcê tem refogado de gato, si ôcê non é sirvida. Colega purgunta ôcê si ôcê non tem gato para vendê. Genti troca gato com galo. Genti tá a róbá gato piquinino como robava frango. Si ôcê tiver umas 3 mãe di gato paridêra, ôcê sáfa um koche.
            Essa kuesa di gato tem seti vida, podi sê nôtro sítio, aqui n San Tomé, gato non tem seti vida más. Si minha avó San Nôvi non tinha môrido di siora já, ingraçada como siora era, siora já tava a dizê:
            - Sumu ê, na damu vida gato fá, punda vida gato bilá tlubuladu muntu ê. Latu ku fingui, só ská dá kebla, kwa kwa kwa!
            Caranguêjo qui vai pá guera, esses qui nosso tempo os rapazi sentava n cima di muro di praia a caçá com ilástico, di bariga cheia, só pá fazê pontaria, esses qui carro passava n cima dêlis fazia krrrrrrr, também tá a virá pitisco.
            Tera mudô muiiito, Apolinária. Quem diz qui tera non mudô, tá com olho fêchado ô tá a vê pulitika só.
            Nôs tempu, quando avó fazia zaquênti ô calulu ô jógo, avó tinha toda essas tamina d’alumínio flor-flor pá mandá um bocadinho dessa cumida pá toda tia, toda prima, toda vizinha. Ôcê andava di castigu, upé kansava pá i intregá toda essa tamina.         Agora,  genti vai pá repatição vendê zaquênti fêto já.
            Tera mudô. Agora, Dia di Dêfuntu, genti vai pá cimitério cumê, bêbê, dansá, dá mortu cumida, dá mortu cacharamba. Dá mortu cumida, dá mortu bêbida, non é kuesa d’ôji, mas cumê, bêbê n cimitério Dia di Dêfuntu non era custumi.
            Agora, até conjuntu toca n cimitério Dia di Dêfuntu.
            Moto ta n cidadi , capim! Todos dia más moto. Campanha tá a vi, ôcê vai vê moto só a entrá.
            Ôtra kuesa qui ôcê vai vê, é doido n cidadi. Genti sempre teve nosso doido. Genti conhecia todo nosso doido, genti sabia nomi dêlis, genti coria n trás dêlis, provocava êlis, brincava com êlis. Genti tinha Paquita, com vistido dela flor-flor, corpo dela di catorzinha, um olho dela txofodu, a falá esse espanhol dela di Fernã du Pó. Genti tinha Peri, com todo plantu dela. Gen’tinha San Ma Dié. Gen’tinha Féli, gen’tinha Júlio Carinha, Horácio Pisa Mulato, Miguel ‘Cinco’, San Ma Plétu, Gringo. Genti tinha esses qui non era bem doido, qui era más pateta: Malé Fili, irmã dêli Alice, Juven. Genti tinha Daimonde com continência dêli e inglês dêli inguiçado, Sum Maria, tocador di banjo, com bariga dêli grandi. Quando Sum Maria sentava a tocá banjo, com saudadi dêli di Muçambiqui n curação, todo passarinho calava bôka; todo anjo dêxava deus sôzinho a tomá conta di céu pá vi poisá n cima di árvori a ôvi dôr dêssi banjo. Ôcê lembra, Apolinária?
            Gen´tinha Raúl Vira Ngwyia Tira-Ponha, qui conhecia toda roça di San Tomé. Daimonde agora tá n’asilo, cidadi já non podi com êli, êli já non podi com cidadi. Juven ainda tá aqui a subi a dêsê, com sapato dêli trocado  e  cara dêli di criança velha. E tinha Coboncóni também, ôcê lembra? Di Tragédia Formiguinha, qui genti provocava, mas non era doido, era pextli e respondia genti com bôka suja: ‘C… mém bô!Um bá Putugá, bô bé? Um cumé bacaiá, bô cumé’?
            Agora, doido tá n cidadi pu! Mas ninguém sabe nomi dêlis, ninguém repara nêlis, ninguém sabe sítio qui eles sairam dêli. Tem qui anda nu, tem qui anda vistido com casaco, tem qui fala com vida dêli, tem qui faz discurso, tem doido jovem intelectual, tem qui ri ri só, tem qui anda com trôxa grande como mundo n cima di cabeça, tem qui anda com cara bluxado qui dá ôcê medo.
            Apolinária, nossa cidadi ficou grandi, nossa cidade cresceu, nossa cidadi cegô, nossa cidadi non conhece doido dela más, non vê doido dela más.
Nossa zona mudô, Apolinária, nossa cidadi mudô, nossa tera qui virô país também mudô, tá a mudá todo dia e genti non vê.
            Quando ôcê chegá, genti fala. Muita kuesa, kuesa muito, kwa lumadu.  Mas toda kuesa tem tempo dêli, cada kuesa tem dia dêli. Ôji, genti non vai falá dessas kuesas.
            Ôcê lembra, Apolinária, quando genti saía di escola di Madre, com chuva a chovê, quando genti brincava n’baxo di chuva, até chegá casa?
            Esses dôs, três dia, chuva choveu di verdadi, mas calor ainda tá aqui. Êssi ano, gravana non quiria acabá. Uma kuesa qui non mudô aqui ainda, é êssi chêro di baro molhado, quando água rebenta como kuesa qui deus tá a dispejá todo rio di céu pá cima di genti, pá cima di planta, pá cima di tera. Esse chêro qui ôcê non pode senti, porque baro non chêra lá nesse sítio qui ôcê tá, porqui nem baro lá ôcê non tem.
            Si ôcê kansô di frio, vem.
            Tera, minh’amiga, tá aqui. Sentada n cima du mar, com bôka dela fêchada, com olho dela aberto, com mão dela n quêxada, a vê genti, a vê genti só, a purguntá genti com olho dela di mãe triste o que é qui genti quer fazê com ela.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Um dia, em 2011, eu disse algumas coisas neste blog...

Acho que consegui fazer alguma coisa... Muito embora várias percepções tenham adquirido novas feições...

"Sete anos de Rio, e surgiu o desejo de vir para a África. São Tomé e Príncipe. São Tomé. Hoje, posso adiantar que estou num empreendimento – solitário* – de compreender as escritas produzidas aqui em ST e de resgatar o que nelas há de possível para um trabalho científico.

Para além disso, muito embora eu ainda não esteja vinculada a algum programa de estudos em uma universidade, sinto-me perfeitamente autorizada a escrever ensaios, a comentar leituras, a criticar críticas ou “atar-me” a algum domínio/linha filosófica, antropológica, etnológica, historicista, pós-modernista ou pós-colonial (ou, para usar palavras de Ahmad, alguma linhagem do presente) dos estudos de literatura. Mesmo estando (n)à margem dos intelectuais das letras, neste caso, mais especificamente, estudantes de África, vivo (num sentido muito amplo) São Tomé e Príncipe. E por vivê-lo, estrangeiramente, femininamente, literariamente, incomoda-me não ter ainda escrito qualquer coisa sobre tal experiência.

É bem verdade que, antes de publicar qualquer texto, ainda que escondido num canto da internet, num blog novo e desconhecido, leio, releio, analiso a pertinência do que digo, verifico cada informação que insiro no texto, e calculo os impactos daquilo que será publicado. Não posso jamais me esquecer de que tenho um compromisso ético com a minha profissão, e de que vivo num país em que a “diferença” pode contar muito contra um estrangeiro (no meu caso, mulher, branca – mestiça, como todos sabem que são os brasileiros –, brasileira. Sim, brasileira: sou, muitas vezes vista como uma mulher “diferente”, marcada pela visão equivocada que se tem das mulheres do Brasil, e alvo de preconceito explícito).

Retomo o objeto primeiro desta investida num blog.
Tomando emprestado o subtítulo de uma crônica de Mia Couto (em Pensatempos, "O sertão brasileiro na savana moçambicana"), "as águas do meu princípio" nas letras santomenses passam, necessariamente, por Conceição Lima. Tenho buscado material para "publicar", com segurança, qualquer coisa que, para além dessa poetisa e outros poucos textos, se possa assinalar de “literariamente legível” nas letras santomenses (e falo de hoje, 2011, antes que se julgue que me esqueço de Francisco José Tenreiro, posta de lado a polêmica questão/cisão da “nacionalidade” do poeta)."









Todavia, isso são mesmo linhas para outras páginas.


*O que quer dizer que não estou vinculada a projeto acadêmico, em qualquer universidade. A iniciativa é puro idealismo.

Fotos!

Falei dos músicos de São Tomé e Príncipe e agora eu os mostro!!! Valeu a pena cada minuto!

Nezó e o seu grupo.

Gilberto Gil Umbelina e a menina Leidy.

Guilherme Carvalho e seu grupo.