quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Fragmentos...



Muitas foram as pessoas que me fizeram a justa pergunta: “e então, sentimento de dever cumprido?”
Eu não sei responder a isso. Pelo menos ainda não.
Uma experiência como a de viver quatro anos em São Tomé e Príncipe não se elabora da noite pro dia e nem tampouco se escreve em meia página. Não sei se havia dever a cumprir.
O pouco que eu consigo dizer hoje é: considero que alguns alunos entenderam o recado que eu não fui dar, e o recado era simples como dizer “libertem-se”.
Simples?
(Eu fui para STP para ser professora de língua portuguesa - a minha língua materna - e de literatura brasileira, além de "animar" outras atividades ligadas à cultura brasileira. Nunca fui professora de língua portuguesa lá.)
Paro agora essas linhas e escrevo para não sentir o tempo do espaço vazio.
.
.
.
Conquistar outras liberdades, a de pensamento e a de expressão, foi o desafio lançado para aqueles alunos que passaram por mim. Alguns (não-alunos) entenderam que eu era/sou “louca” (a vantagem das pequenas sociedades é que se sabe de tudo. E é também a desvantagem!) Mas que maravilha ter sido louca! Isso significa que alguma coisa diferente eu tinha pra mostrar (e, convenhamos, lidar com a diferença é muito difícil). Entre caminhos tranquilos e outros extremamente ruidosos dessa longa jornada, eu prefiro trazer pra casa
.
os zelos dos poucos amigos são-tomenses e brasileiros que fiz
a beleza dos versos de Conceição Lima
o romanceiro albertiniano (termo que acaba de nascer, retirado do limbo por 4 mãos)
a marca da paisagem no olhar
o mar...
.
.
.
Guardo também um sentimento de gratidão pela terra que me acolheu. Nem sempre foi fácil viver ali, mas da paz de atravessar a rua silenciosa e tomar um café no Avenida da Inácia e seus gatos... não se esquece.
.
.
.
Elaboro os ferozes embates em relação à língua (embora vá tomar algum tempo). Aqui no Brasil, no meio em que convivo, aceitamos a nossa língua, não temos problemas com nossos sotaques, e nem sempre sabemos que Portugal está na Europa (?). Gosto de voltar a conviver com uma aparente paz linguística — a paciência — e o respeito para com os valores de cada marca dos milhões de falantes desta terra brasilis. Estamos longe de ter uma política linguística ideal (mas o que será esse ideal?), no entanto o caminho que já percorremos em relação ao colonialismo é mais longo e, se eu comparasse com STP, estaria sendo no mínimo injusta. Cada povo tem seu tempo de maturação. É preciso respeito e cuidado.
.
.
.
Mas eu queria desejar que STP fosse ele mesmo, com suas falas deliciosas e todas as suas outras quatro línguas na rua, nas bocas das pessoas, nas salas de aula!!! Eu sinto saudade do rrrr que só ouvi lá.
.
.
.
E a vida segue apressada lá embaixo, na rua. Uma imensidão de carros e ônibus.
É preciso ter calma agora.
E aos poucos ir relembrando o que significaram pra mim esses anos todos, em que eles me fizeram ser diferente, marcando o indivíduo que sou (posso ser) hoje.
.
.
.
Estes são fragmentos apenas. Para não deixar o blog tanto tempo abandonado!(?)
Fragmentos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Minicurso Introdução ao estudo das línguas crioulas

Prezados,

nos dias 20, 21 e 22 de agosto, a professora Ana Lívia Agostinho (doutoranda - Universidade de São Paulo - USP) ministrará o minicurso "Introdução ao estudo das línguas crioulas"
na Sala de aula da Embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe, das 9h às 11h da manhã.

As inscrições estarão abertas até o dia 16 de agosto, na recepção da Embaixada, das 9h às 12h e das 15h às 16h.

As inscrições são gratuitas!

Os participantes receberão um Certificado.
Estejam à vontade para pedir esclarecimentos, via email ou na Embaixada.Contamos com sua participação.
A organização.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pureza, simplesmente — é que eu também sou ave!

Me encantam as pessoas que se gritam no mundo sem medo. Eis que fala o Amigo Fred, em poema:

"Sou ave
livre
voo
do bando
com quanto gosto
vou e venho
pode ser
como se diz
tomo rota falsa
rumo ao céu

Tenho asas
não mais que duas
pode ser
como se diz
não tenho jeito
vou só com o vento
quem alto voa
se cai
ADEUS.

Trago ensanguentado
o meu bico
comprido
quem perde?
o quê?
que mal fiz?
a quem?
se me quebram o bico?"

(Frederico dos Anjos, poeta são-tomense)

Albertino Bragança e Edjmilton Fernandes

No dia 26 de julho, encerrei minhas atividades no ISP-STP (Instituto Superior Politécnico de São Tomé e Príncipe) com muita graça: uma sessão de defesa de monografia do então licenciando Edjmilton Fernandes com a presença do autor estudado, o Sr. Albertino Bragança. Autor de três obras fulcrais para a prosa são-tomense (Rosa do Riboque e outros contos, Um clarão sobre a Baía e Aurélia de vento), Albertino, com sua generosidade e delicadeza características, nos brindou com sua presença, incentivando e encorajando o meu (com muita honra!) orientando Edjmilton a fazer uma bela defesa do seu "Mulheres de Bragança: o feminino nas obras albertinianas". Reproduzo aqui o resumo do trabalho, que, se autorizado pelo autor, publicarei neste blog!

"A obra albertiniana compreende relatos ficcionais, que visa ao conhecimento da realidade santomense dos sécs. XIX, XX e XXI. A estruturação textual das obras, o prazer e o saber vão se tecendo com uma rede de implicações sociais. Esse modo de construção deixa descobertas as realidades colonial e pós-colonial, além da inquietação dos que contestavam o regime político da época.
Do outro lado da mesma moeda, o autor enaltece de maneira heroica a presença feminina no meio dessas controvérsias: trata-se de mulher que surge protagonizada, em primeiro plano, nas obras do romancista. O autor dá voz ao “rugir da leoa”, que era relegada à periferia cultural e social. Diante dos homens, as mulheres estavam quase sempre cabisbaixas, estavam marcadas pelo estigma de “incapazes”, certamente devido a vários mitos que reinavam sobre a sua pessoa e a certos costumes dos tempos. Nem na literatura se ouvia a voz da mulher.
O autor coloca a mulher em acção, como afirma em entrevista concedida a Michel Laban: “…eu forjei essa greve [dos estivadores] e pu-la [Rosa Adriana] a angariar fundos, que era uma coisa que uma mulher corajosa e decidida podia fazer. Ela fê-lo com dinamismo…”
Portanto, as mulheres albertinianas são aquelas que dizem: “somos capazes, não estamos atrás, mas, sim, ao lado dos homens, sofrendo e lutando contra os vendavais dessa sociedade complexa para nós.”

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Para José Eduardo Agualusa


“No princípio, os homens não falavam. Nenhum animal falava, excepto os pássaros. Havia um saco com palavras que estava à guarda de Andua. Foi então que apareceu um rapaz com um único braço, uma única perna e só metade da cabeça. O rapaz roubou o saco das palavras, abriu o saco e meteu as palavras à boca. Na manhã seguinte, quando despertou, era uma pessoa inteira, mas metade rapaz e metade rapariga. Além disso falava, e a sua língua era ágil e harmoniosa como a dos pássaros.” (De um conto tradicional ovimbundo, em Seleção de Contos, Provérbios e Adivinhas em Umbundo, de Jeremias Capitango) Apud AGUALUSA, José Eduardo. Milagrário pessoal. (Apologia das varandas, dos quintais e da língua portuguesa, seguida de uma breve refutação da morte). Dom Quixote: Alfragide, 2010.


Caiu-me nas mãos, Agualusa, no meio do sul da ilha de São Tomé e Príncipe, lá em São João dos Angolares, o seu Milagrário pessoal. Como um milagre, em meio às turbulentas águas que me vêm encharcando a alma nos últimos dias – de alegrias, e não. Como um milagre, suas palavras. Como milagres, os sorrisos calados no canto da minha boca ou nas minhas “retinas fatigadas”. Iara – nome que me joga numa tribo indígena do meu Brasil – me inquietou com as suas inquietações, e o professor, meu ombro de África, meu corpo de África, meu milagre no final de quatro anos vivendo em África. Você bem sabe, Agualusa, que não falamos assim no Brasil, de África, em África. Mas é aqui que estou, e daqui estou bebendo as palavras dos anônimos que me deram sorrisos e me ensinaram a dizer que vou dar gato banho, que simbrão hoje muito tem nove, tem dez, que não dá boleia gen’ noite, wê be wê, wê na be kloson fa êêê... Eu me regozijo a cada frase que fere meus ouvidos de brasileira, das Minas Gerais de Rosa e Drummond. E de um pedaço do Pantanal de Barros e do Rio/Bahia (ou será o contrário, ou tudo amálgama?) de Caetano. Ando tão cansada, Agualusa, e seu nome aquático é o que carrego agora pra onde vou, pra onde quer que eu vá nesses dias finais de São Tomé, que você também conhece. Confesso que estou cansada de saudade do Brasil, da pele da mãe, dos batuques do irmão, dos cabelos da irmã, da careca do pai, da voz das crianças, do seio dos amigos. Cansada de saudade do meu sotaque caipira, delicioso sotaque da minha família, do quintal onde enterraram o meu umbigo. Cansada de calar o óbvio e gritar muda pro mundo nada que se escute. Sou professora, e a mim me preenche o afeto dos meus a-lunos, lunas, que giram em torno da minha outridade e me ofereceram o espelho de não me ver. (Veja que estou com seu estilo nos poros.) Mas o Milagrário veio para me descansar a saudade e fazer nascer em mim uma espécie de pássaro, que voa longe, mas um pássaro muito pequeno, que some no firmamento, porque eu, Agualusa – e você nunca me conheceu e talvez nem nos conheçamos no futuro – sou pequena como esse pássaro que some, e meu amor pelas coisas da vida são como vôos perenes, longínquos, rastros. Um dia eu brinquei de ser poeta, escrevi palavras, mas quando eu juntei elas todas, percebi que só fazia inventário, por isso receio te dizer que um dia falei de milagres nos versos que tombavam da minha caneta. Mas o milagre muito íntimo do último dia é esse livro, sem segredos, que, como uma catapulta, me tirou da tormenta e me deu um certo “dialeto coisal, larval, pedral” que me fez ter coragem de te escrever essas linhas, com um poema pendente delas, jogando-as ao vento, sem saber se me lerá. Obrigada, Agualusa, pelo Milagrário pessoal.


— poema pendente —

Reticências

Sinto na boca o cheiro do sal
do mar verde e calmo daqui.

Caminho pelas ruas e não sei pensar.
Meus divagares são pássaros marinhos,
salgados.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Últimos dois experimentos e fotos de alguns autores!






A poesia

Para compreender a poesia deve-se conhecer rima, métrica, classificação. Deve-se mastigar as palavras e mudá-las e transformá-las. Deve-se mudar a vida e transformar o mundo num jardim com diversas flores.
Deve-se aproveitar a vida e viver-se feliz.
***
Mário foi tocado pela poesia, partindo de palavras simples e significativas, que podem transformar o ser, porque a poesia é trabalho, é um caminhar contemplativo.
***
Mário Ruoppolo, homem simples, conquistou sua Beatrice com palavras e Metáforas...

(Ana Mota)

  

As mãos do poeta cortam cebola
(Para a São e o Fred)

As mãos do poeta fazem ninho em
meus cabelos.
Sua voz ecoa, cheiro forte, em
meus ouvidos.

As mãos do poeta dizem que
meus dedos
precisam água e vento
que
meus versos
precisam cebolas e alimento.

Os olhos do poeta habitam
minha pele.
Suas pálpebras, janelas, lágrimas
tateiam
minha alma.

A voz do poeta fala línguas
diversas.
Mãos diversas, pupilas, cheiros.
Meus versos precisam
braços
para serem, poeta.

(Naduska Palmeira)

E mais experimentos feitos pelos alunos do primeiro ano de Língua Portuguesa do ISP!

 
Poesia

Contigo aprendi a andar,
contigo aprendi a olhar,
contigo aprendi a sonhar,
contigo aprendi a amar.

Eu, que não te conhecia,
porque a olho nu ninguém te via.
Os sonhos, as paixões, que para mim estavam tão distantes
se revelaram a partir do momento em que tu a mim te mostraste

À minha vida deste sal,
aos meus olhos cegos fizestes ver.
A dor, que outrora me oprimia, já não me faz mal.

O amor eu conheci, na vida eu cresci.
A bela arte de viver aprendi para sobreviver.
Das grades da Caverna me fortaleci.

(João Quéner)


           
Quero ser poeta!
Poeta acima de tudo!
Qual é o segredo?
Segredo não há...

            Como Pablo, comecei
a caminhar à beira-mar
observando o vai e vem
das ondas...

            Que maravilha!
Maravilhosa é a sua
imensidade, que não
consegui compreender...

            Ali andei, andei à
procura duma palavra
com oito letras:
Metáfora!

E foi com a metáfora que
conquistei Beatrice.

(Luisa Inácio)

Lançamento do livlu-nglandji santome-putugêji e meu "discurso"

Na mesa, Naduska Palmeira, Leitora no ISP, Gabriel Antunes, da Universidade de São Paulo, Professor João Pontífice, vice-presidente do ISP, e Tjerk Hagemeijer, da Universidade de Lisboa


É com muita satisfação que lançamos hoje, dia 25 de junho, no ISP, o dicionário livre santome-português / livlu-nglandji santome-putugêji, apoiado pelo Programa de Reforço ao Leitorado Brasileiro. São autores da obra o professor Gabriel Antunes, da USP, e o professor Tjerk Hagemeijer, da UL. Ademais, devemos ressaltar que também são autores todos aqueles que colaboraram com os pesquisadores, enviando suas contribuições, dando entrevistas, discutindo os parâmetros e os paradigmas do dicionário, e todos aqueles que falam, escrevem e escreveram a língua santome.
Para São Tomé, trata-se de um passo imenso para a tão discutida valorização das línguas crioulas faladas nas ilhas – quatro, no total – visto que, desde já, os desejos se fizeram escrita, e esta, como diz o velho ditado latino, permanece. O livro já foi lançado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 19 de junho, em conjunto com a Associação para os Estudos dos Crioulos de base Portuguesa e Espanhola e da Society for Pidgins and Creole Languages, e será lançado na UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), no Brasil, em 04 de julho. E, ainda, no dia 12 de julho, será lançado na Feira do Livro de São Tomé e Príncipe, em Lisboa.
Agradeço à Embaixada do Brasil pelo apoio, fundamental na compra de alguns exemplares do dicionário para a distribuição gratuita em STP. Agradeço ao professor Gabriel Antunes, que veio lançar a obra conosco, e com os são-tomenses, os mais interessados no assunto. Estendo os agradecimentos ao professor Tjerk Hagemeijer, pela presença nesta sessão e por todo o trabalho realizado.
Gostaria de aproveitar o momento para dirigir algumas palavras aos senhores, de minha inteira responsabilidade, acerca de minha experiência como leitora neste Instituto, já que me despeço do cargo com este evento. Tenho acompanhado ativamente as discussões que se fazem sobre as línguas em STP. No que diz respeito ao santome, já se vê hoje uma atitude acadêmica e política para valorizá-lo, não deixando assim que ele se transforme apenas em memória longínqua.
Começo aludindo a Eduardo Lourenço, intelectual português:
“Uma língua não tem outro sujeito senão aqueles que a falam, nela se falando. Ninguém é seu “proprietário”, pois ela não é objeto, mas cada falante é seu guardião, podia dizer-se a sua vestal, tão frágil coisa é, na perspectiva do tempo, a misteriosa chama de uma língua.”
Quanto à língua portuguesa, ainda vejo a necessidade de se descrever o português são-tomense, que possui variedades enormes, e que passa por estudos iniciais, na UFRJ, por exemplo, afim de se verificar os fatores que promovem essa variação, associada possivelmente à escolaridade (quanto mais escolaridade, mais lusitanizado, e o contrário, mais são-tomense). Tem havido cada vez mais estudos  acerca dessas variações, todas elas legítimas e que precisam ser  valorizadas como tais. Os esforços têm como finalidade a abolição dos discursos acadêmicos e políticos o mote de que “quem fala o padrão, imposto e não adequado ao país, é a elite”, quando em STP não se fala como em Portugal, pensamento que esconde uma realidade muito dura: quem fala uma variante dialetal desse “português mitificado padrão” é e será sempre subalterno, ocupará sempre espaços de menos prestígio social. O problema é que quem fala essa variante dialetal é a maioria da população do país! É necessário, pois, desmistificar a ideia de que existe qualquer português “padrão” (e o que é o padrão?), pois todos nós, falantes da língua, construímos nossos padrões sobre as bases de nossas necessidades de uso. É importante também ressaltar que a norma é essencial para a manutenção da língua e a fala é fundamental para a sua vitalidade. A gramática normativa é o registro da língua, sedimentado, e deve ser estudado. A fala é que dá à língua a sua vitalidade e mobilidade inerentes. Volto a Lourenço:
“A celebrada alma portuguesa pelo mundo repartida, de camoniana evocação, foi, sobretudo, língua deixada pelo mundo. Por benfazejo acaso, os portugueses, mesmo na sua hora imperial, eram demasiado fracos para “imporem”, em sentido próprio, a sua língua. Que ela seja hoje a fala de uma país-continente como o Brasil e a língua oficial de futuras nações como Angola e Moçambique, que em insólitas paragens onde comerciantes e missionários da grande época puseram os pés, de Goa a Málaca ou a Timor, que a língua portuguesa tenha deixado ecos de sua existência, foi mais benevolência dos deuses e obra do tempo do que resultado de concertada política cultural.”
Como acadêmica e membro deste instituto, posso apenas propor que se debata e se aja mais ainda neste sentido de legitimar a língua do “bom povo são-tomense”, como poetou Manuel Bandeira em “Evocação do Recife” sobre a língua brasileira:

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam...

E retomo: é preciso valorizar a língua do povo do sul, do norte, do centro, das roças, pois este mesmo povo, livrando-se do peso de não poder ascender socialmente, porque não fala uma língua de poder, poderá ter sua auto-estima mais elevada e se tornar verdadeiramente independente. Necessária é a apropriação da língua que deverá ser descrita e a consciência das adequações linguísticas aos diversos contextos de comunicação. A fala não pode ser julgada por valores como “inferioridade” ou “superioridade”.
Camões fundamentou uma língua, e nós fizemos brincadeiras com ela, imprimimos modos de falá-la e de formulá-la, até que se tornasse nossa, embora língua sem dono, e língua de todos.
Desfrutemo-la pois, e demos a ela nossos sotaques, nossas variações.

Naduska Palmeira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

E mais!


Beatrice Russo

Aqui estou eu no meu quarto escuro.

Aqui estou eu pensando na moça da taberna.

Estive perto, mas só consegui dizer o seu
nome, Beatrice Russo, Beatrice Russo...

Moça linda, cabelos longos.

Dura, dura como uma pedra, mas
solta como o vento.

Pensava, não conseguia, mas com
a ajuda do meu amigo Poeta, fiz
metáforas que conquistaram
seu
coração, amplo, amplo como
o céu.

Tu não és do homem, mas
de deus
que não te deu a ninguém:
somente a mim.

(Adjamila dos Ramos)



Quando a gente quer

Estou cansado de viver
de ser um homem como sou,
neste lugar sem água
não quero permanecer,
não quero entristecer.

O meu pai é cansado
vive dependente do mar.
Com o corpo salgado,
desgastado pelo frio...

E eu, o que hei de fazer?
Já tenho minha idade,
quero viver a liberdade,
descobrir a verdade
com esperança nos olhos
apostando na mudança.

(Inácia da Glória)